Profissões Gamers: Bad Minions

Tags: alkimya, bad minions, Indie Games, profissões gamers, RPG

Riiise from your graaave, coluna Profissões Gamers. (/*__*)/ ~~

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Durante o último ano do meu Ensino Médio, sentados estrategicamente no fundão da sala, eu e mais dois amigos passávamos boa parte do tempo conversando sobre videogame ou jogando alguma coisa, geralmente xadrez — havíamos feito um tabuleiro com peças de papel, caso o professor passasse olhando bastava colocar o caderno por cima e fazer cara de paisagem — ou sessões de RPG enquanto fingíamos fazer os exercícios.

O entrevistado de hoje era o amigo que mestrava essas campanhas. Ele não apenas conduzia o storytelling como imaginava a topografia dos cenários, traçava mapas para nos situar melhor, pensava em cada detalhe com uma bagagem de referências invejável.

Enquanto escrevo estas linhas, a minha mente conjura a memória daquele garoto criativo que demonstrava um apreço tão genuíno pelo universo da fantasia (seja nos livros, nos filmes ou nos jogos), e meu coração se enche de alegria por ele ter se tornado um homem que trabalha com o que sempre amou, finalmente criando seus próprios mundos.

Apresento-lhes Leonardo Batelli, produtor e programador do estúdio Bad Minions.

 

– Qual caminho você trilhou para trabalhar com jogos?

Quando saí do Ensino Médio, não tinha muita noção do que gostaria de fazer. Pensei em várias profissões, mas nunca me apaixonei por alguma. Fiz engenharia por um tempo, mas me senti infeliz e decidi sair para buscar algo mais abrangente, que eu tivesse liberdade para decidir.

Quando estava para me formar e sem ainda ter me encontrado, tive uma disciplina sobre empreendedorismo. Ninguém do meu grupo queria entregar sua ideia de ouro para o trabalho final, que era fazer o plano de negócios de uma empresa. Então, não sei bem como, dei a sugestão de fazer sobre uma empresa de jogos. Tive que pesquisar a indústria local e os cursos profissionalizantes. Achei uma graduação recém-aberta e decidi fazer em paralelo. Foi bem desafiador, mas consegui me formar nas duas.

Ainda no segundo ano de faculdade, um dos professores me chamou para criar uma empresa. São 4 anos de Bad Minions e muito aprendizado. Mas todo esse caminho valeu a pena.

 

– Fale um pouco sobre a sua profissão e como está o mercado no Brasil atualmente.

Bom, a Bad Minions é um estúdio indie, então todo mundo faz de tudo um pouco. Do cafezinho à programação. Mas eu tenho feito, principalmente, programação, produção e roteiro. Temos falta de programadores no Brasil. Programador é a pessoa que vai dar vida ao jogo, fazendo as engrenagens girarem e o jogo funcionar. Ele é culpado pelos bugs também. Mas o salário que as empresas de TI oferecem é bem maior, então a maioria não se interessa em seguir um sonho.

São raros os verdadeiros produtores aqui no país. Principalmente por conta da necessidade de desempenhar diversas tarefas, pequenas equipes e nível de maturidade da indústria. Produtor é o cara que cuida do planejamento e andamento do projeto, mantendo a equipe motivada e eficiente. Ele também faz diferentes áreas conversarem e estarem bem atendidas. Ele busca satisfazer o mercado e desejo de terceiros, como investidores, sem sacrificar a alma do projeto e a criatividade da equipe. Ser produtor é bem trabalhoso e praticamente joga o sucesso do projeto sobre os ombros dele.

Roteirista sofre do mesmo mal que o produtor. Ser “apenas” um roteirista deixa a equipe sobrecarregada e representa um custo excessivo para microempresas. São áreas difíceis de ingressar e que exigem experiência. Quem almeja atuar nessa área vai sofrer um pouco, mas se a pessoa for dedicada, com certeza irá obter sucesso.

 

– Como é sua rotina típica de trabalho?

Para ser sincero, não tenho uma rotina típica. Eu trabalho de segunda a segunda, da hora que acordo à hora que eu vou dormir. Mas são sempre tarefas diferentes, conforme a necessidade. Numa semana, estou morrendo de tédio redigindo documentos internos e para publicadoras. Em outra, estou fazendo uma boss fight como a luta contra o dragão. Muitas viagens para buscar financiamento e promover o jogo. Em agosto, ficamos o mês inteiro produzindo textos, imagens e vídeos para a campanha de Kickstarter. O jogo não andou durante isso. Então, varia muito conforme a época do ano e estágio do jogo.

 

– Que dicas você daria para quem está pensando em trabalhar na sua área, mas não tem ideia de como começar?

Existem várias dicas. Mas as principais são:

1) Encontre a sua área — programação, arte 2D, arte 3D, animação, áudio. Foco para ser bom em uma atividade. É como eu escutei uma vez, “não existem desenvolvedores ruins ou medíocres”. O mercado de jogos é extremamente difícil e competitivo, e desenvolvedor ruim ou mediano não vai ter emprego no próximo projeto. Dedique-se e aprenda! Não se iluda com sala de aula. Infelizmente, nas faculdades, as pessoas procuram “passar” com o menor esforço. A exigência da indústria é muito maior.

2) Faça muitos jogos. Em vez de fazer um jogo, faça muitos pequenos jogos. Um jogo tem várias etapas de desenvolvimento, e você tem que passar por todas elas para “subir de nível”. Cada lançamento, você vai sentir que chegou mais longe e aprendeu algo novo. Jogos grandes podem ser extremamente frustrantes e a chance de não chegar ao fim é alta. No início, estamos aprendendo a parte técnica, mas fazer um bom jogo já é difícil por si só. Imagine brigar com a parte técnica enquanto ainda encara os desafios naturais do desenvolvimento. Então, fazer muitos jogos permite que você evolua na parte técnica, sem ficar amarrado aos projetos. Assim você conclui etapas pequenas e se sente recompensado também. Projetos grandes, você acaba ficando frustrado e refazendo seu trabalho de meses ou anos antes para a qualidade alcançar o mesmo nível.

3) Aprenda a receber críticas e trabalhar em grupo. Aceitar as opiniões dos outros pode ser bem difícil, mas tem que entender que o jogo é uma construção coletiva. Quando o jogador for jogar, ele não vai falar “Olha que puzzle legal que o Batelli fez”. Ele vai dizer “Nossa, que jogo legal que a Bad Minions fez”. As vezes nem o Bad Minions existe para o jogador. O que vale é a experiência proporcionada, e não de quem foi a ideia. O objetivo é sempre entregar um bom jogo. E acredite, isso é muito difícil de aceitar para a maioria das pessoas. Aceitar críticas ao seu trabalho também é importante. Um programador pode criticar arte e um artista pode criticar a programação (de forma indireta, como o gameplay). Isso é natural, faz o jogo evoluir. Ser resistente a críticas só diminui a qualidade do projeto e piora os relacionamentos dentro do estúdio.

4) Não corra para tornar a empresa oficial. CNPJ são caros e podem esperar. Teste seus sócios antes. Veja quem são. Curta os projetos com eles. Se der certo, aí você pode pensar em subir um degrau.

 


 

O próximo jogo do Bad Minions, Alkimya, está ficando lindo e tem um conceito muito bacana que envolve, obviamente, a alquimia. Para quem curte coisas como Magicka, Zelda, Fullmetal Alchemist e os jogos da CD Projekt Red, recomendo muito dar uma conferida na campanha de Kickstarter deles: Alkimya – Alchemy Action-Adventure Game

 

Confiram também a entrevista das meninas do Bad Minions para a IGN Brasil na BGS 2016.

 

Para acompanhar o estúdio:

Site do Bad Minions

Facebook do Bad Minions

Twitter do Bad Minions

Bebs
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