Freud explica: Laura em Silent Hill 2

Tags: james sunderland, konami, laura, silent hill 2, team silent

Este artigo fecha a trilogia Freud explica Silent Hill 2. Valtiel recomenda ter lido os anteriores (Parte 1: Angela e Eddie, Parte 2: Pyramid Head e Maria) antes de continuar. ;)

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A pessoa mais enigmática das que atravessam o caminho de James Sunderland não é Maria, nem Angela, muito menos Eddie: e sim, a pequena Laura. O que teria levado uma criança (sem qualquer identificação além do primeiro nome) a vagar sozinha por uma cidade aparentemente infestada de monstros? Como ela chegou até lá? Quem são e onde estão seus responsáveis?

Perguntar é inútil, ela não está nem um pouco a fim de colaborar.

No entanto, se seu passado e seu propósito em Silent Hill são inicialmente grandes incógnitas, o comportamento de Laura nunca esconde que ela tem algo contra James – quando os dois se esbarram pela primeira vez num corredor do Wood Side Apartments, a menina chuta a chave que ele tentava alcançar e pisa sua mão.

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O episódio da chave poderia ser confundido com mera pirraça infantil, não fosse a hostilidade das palavras trocadas no encontro seguinte. Sentada num muro, Laura rebate as indagações de James com o desdém de quem perde a paciência diante de perguntas estúpidas.

James: What’s a little girl like you doing here, anyway?

Laura: Huh? Are you blind or something?

Não por acaso, a construção imagética desta cena traça um paralelo metafórico sutil com a dos Pyramid Head no hotel: os carrascos e Laura estão em posição moral superior a James.

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James: What’s that letter?

Laura: None of your business! You didn’t love Mary, anyway.

James passa de ressabiado para totalmente confuso ao notar que a garotinha não só possuía outra carta misteriosa como conhecia Mary. Ele tenta sondar mais, porém, Laura se esquiva de todas as suas tentativas de aproximação. O rapaz só consegue descobrir o nome dela através de Eddie, quando as trajetórias dos três convergem brevemente no Pete’s Bowl-O-Rama.

Impelido por Maria, James segue Laura até o Brookhaven Hospital, onde a encontra brincando calmamente com ursinhos de pelúcia em um leito vazio. A menina parece sentir-se em casa no ambiente hospitalar, e James aproveita a oportunidade para tentar obter mais informações.

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Laura também está procurando Mary (sem saber que ela morreu), as duas ficaram amigas no hospital em que estiveram internadas “no ano passado”. Esta revelação torna impossível Mary ter morrido há três anos, mas James prefere ignorar o choque da realidade contra sua negação e acreditar que seja uma mentira.

Ele ainda abstrai o fato de que Laura não enxerga todas as criaturas estranhas que infestam as ruas de Silent Hill. Aos olhos de uma inocente, a cidade parece absolutamente normal.

James: This is no place for a kid. There are all sorts of strange things around here. I can’t believe you haven’t even gotten a scratch on you!

Laura: Why should I?  

Mais à frente, Laura surpreende James no restaurante do Lakeview Hotel.

Cansada de procurar Mary por todos os lados em vão, ela decide dar uma trégua a ele e, enfim, mostrar o conteúdo de sua carta. Era uma mensagem de adeus em que Mary confessa o desejo (frustrado pela iminência da morte) de adotar Laura e lhe felicita por seu oitavo aniversário.

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A esta altura, James não consegue continuar negando as evidências de que vinha perseguindo uma ilusão. Ele pergunta a idade de Laura: oito anos completados “na semana passada”.

Laura: Me and Mary talked a lot about Silent Hill. She even showed me all her pictures. She really wanted to come back. That’s why I’m here. Maybe you’ll get it if you see the other letter. The one Mary… Huh? I must’ve dropped it!

James segue para o quarto 312 do Lakeview disposto a encarar qualquer versão de Mary (viva ou morta) que o esteja esperando em seu lugar especial – mas encontra apenas uma televisão e um videocassete.

Pouco antes, ele tinha coletado de um cofre de achados e perdidos a fita que gravara no hotel quando o casal visitou Silent Hill em tempos melhores, antes de a esposa adoecer, e agora não lhe resta outra opção senão assisti-la.

As memórias do sufocamento de Mary, até então suprimidas, emergem numa erupção dolorosa em meio às lembranças felizes contidas no filme. Já desprovido de muletas psicológicas para sustentar sua negação, James finalmente aceita a realidade.

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Laura: So there you are, James. Did you get the letter? Did you find Mary? If not, let’s get going already. Okay?

James: Laura… Mary is gone. She’s dead.

Laura: Liar! That’s a lie!

James: No, that’s not true.

Laura: She died ‘cause she was sick?

James: No. I killed her.

Enquanto Angela, Eddie, Maria e Pyramid Head serviam de espelhos para a tragédia de James, é Laura quem desmonta suas defesas, obrigando-o a confrontar uma verdade ainda mais dura: a de que James não matou Mary somente para libertá-la do sofrimento, mas para libertar-se do fardo em que a esposa havia se transformado.

Laura: You killer! Why’d you do it?! I hate you!! I want her back! Give her back to me! I knew it! You didn’t care about her!

Por volta dos cinco ou seis anos – principalmente com o desenvolvimento da fala – as crianças começam a aprender a dominar os impulsos e assimilar as nuances da realidade em que vivem. É nesta fase da infância que se inicia a formação do Superego.

Com oito anos recém-completados, a pequena Laura ainda está no início deste processo e não tem mecanismos psicológicos completamente desenvolvidos, portanto enxerga as coisas como elas são – sem máscaras ou subterfúgios. Ela simboliza a inocência, e sua busca incansável pela verdade aponta o caminho da redenção.

Laura é o farol que James precisa seguir para não se perder em sua jornada silenciosa.

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Silent Hill 2 começa diante de um espelho porque não é Mary quem James deve salvar, mas a si mesmo: o James que admite seus erros, e não uma imagem idealizada; o James que aceita sua fraqueza, e não o que se deixa soterrar sob uma avalanche de culpa e arrependimento.

Só que encarar o que há por trás do reflexo costuma ser doloroso.

Mas é preciso deixar doer.

Não se pode curar o que não machuca.

*

She was always waiting for you… why… why…

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NOTAS

— No aspecto narrativo, Laura tem um papel similar ao de Rose em Metal Gear Solid 2. Raiden vive em negação da natureza fabricada de sua existência; as interrupções de Rose (ora para conversar amenidades, ora para discutir a relação) são tentativas de trazê-lo à realidade. Impedida de revelar a farsa daquela missão, ela tenta instigar as memórias do namorado para aguçar sua percepção, pois somente aceitando seu passado é que Raiden poderá mudar seu futuro.

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— Sabemos que Mary escreveu duas cartas quando foi liberada para passar o parco tempo de vida que lhe restava em casa — uma para Laura e outra para James — e que ela pediu que sua enfermeira as guardasse para serem entregues depois de sua morte. Laura conta que pegou as cartas do armário de Rachel, e fica implícito que a segunda carta mencionada na conversa no Lake Shore Restaurant, a que ela perdeu, seria a destinada a James. Só não se sabe como e onde ele teria encontrado esta carta.

Na mensagem, Mary fala sobre como James nunca cumpria a promessa de levá-la novamente ao seu lugar especial; sobre como ela passava dias olhando as rachaduras no teto, esperando em vão as visitas do marido; sobre como Mary desconfiava que James não a quisesse de volta em casa; sobre como às vezes parecia que ele a odiava, sentia pena ou nojo.

Entrando no campo da especulação…

Eu acredito que James achou o envelope pouco depois de tirar a vida de Mary, e que ler a carta foi o gatilho para sua mente entrar em colapso – o impacto emocional das palavras de Mary teria devastado qualquer possibilidade de autoabsolvição. Não conseguimos ler a carta por inteiro durante o jogo porque James, ao entrar em negação, bloqueou mentalmente as partes que o condenavam.

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— Apesar de James passar pelo hospital Brookhaven, não foi nele que Mary ficou internada. Algumas conexões entre SH2 e SH4: The Room sugerem que Mary pode ter ficado no hospital St. Jerome em Ashfield, a cidade onde morava o pai de James, Frank Sunderland. Convém notar que St. Jerome (São Jerônimo) é um nome cristão, e se Mary mencionava freiras (“don’t be too hard on the sisters”) na carta para Laura, o hospital só poderia ser uma instituição católica.

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— Outra teoria interessante, na qual eu gosto de acreditar, é que enquanto James ficava vagando por Silent Hill o corpo de Mary estava dentro do carro o tempo todo (provavelmente no porta-malas). No final In Water, James se suicida jogando o carro no Toluca Lake para “ficar junto” de Mary; e se no final Rebirth é possível ver o corpo de Mary na canoa, de onde James o teria retirado senão do carro?

*

Até mais! I’ll see you in my restless dreams

Bebs
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2 Comentários em "Freud explica: Laura em Silent Hill 2"
  1. 05/01/2017

    A Laura é a personagem que nos joga pistas o game inteiro sobre o que aconteceu de verdade com Mary, e sobre a reputação de James!

    Essa do hospital eu já tinha reparado, sempre imaginei que James e Mary não eram moradores regulares de Silent Hill, e sim apenas turistas. Mas nunca reparei em qual hospital exatamente ela estava, esses fans reparem em tudo!

    Até mais! Ainda aguardando nos meus restless dreams sobre o post dedicado ao minigame da Maria!

  2. Bruno Reis
    09/01/2017

    Não vou me estender no comentário. Sou um fã de Silent Hill (mais dos 3 primeiros jogos, que me trazem até uma sensação de bem estar), e gostaria apenas de parabenizar pelo seu trabalho moça. Você entende e compreende Silent Hill como eu. Poucos tem essa capacidade.

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