História, literatura, baleias e Metal Gear

Tags: hideo kojima, Kojima Productions, konami, mgs v, moby dick, the phantom pain

Este artigo aborda o romance Moby Dick (1851), de Herman Melville. Se você não faz ideia do que se trata, dá uma lida rapidinha nessa sinopse antes de continuar. ;)

Metal Gear Solid V teve uma estratégia de divulgação bem kojimística. Antes de ser revelado oficialmente na GDC 2013, o jogo brotou na internet como algo muito similar a Metal Gear, do (fictício) estúdio Moby Dick. Seu trailer continha alusões claras à obra de Herman Melville: um personagem misterioso pedindo para ser chamado de Ishmael, um Big Boss enfermo que este chamou de Ahab e uma baleia voadora de fogo que os fãs ainda se perguntam what the fuck?

mgs moby dick - ishmael

Call me Ishmael.

Sabendo que o Kojima costuma se empolgar nas referências e na metalinguagem, inclusive nas campanhas de marketing, tais pistas no teaser certamente indicam que o clássico da literatura norte-americana foi uma das fontes de inspiração para The Phantom Pain. Fangirl de Metal Gear que sou, pretendo fazer uma análise combo livro + jogo quando TPP for lançado, mas já consegui identificar alguns paralelos interessantes entre eles que renderam uma prévia!

Antes de prosseguir, devo avisar que Moby Dick não é uma obra tão “pesada”, embora alguns aspectos que aponto no texto possam passar essa impressão. Enquanto aborda temas difíceis, a prosa do Melville é prolixa, pomposa e bem humorada. Assim como o Kojima, que utiliza toques de humor para equilibrar a seriedade do universo MGS.

Então, vamos lá! Entra na caixa de papelão, me liga no Codec e vem comigo. o/

(Aviso: ficou tão longo quanto uma cutscene de MGS4 e contém spoilers.)

mgs moby dick page

Embora centrado na jornada vingativa do Capitão Ahab, o enredo de Moby Dick é cheio de nuances, personagens complexas e alegorias que exploram questões filosóficas maiores que a vendetta contra o cetáceo branco. Através das divagações de Ishmael, o curioso marinheiro que reconta as aventuras vividas a bordo do navio Pequod, somos levados a refletir sobre a condição humana (dos exploradores e dos explorados) em tempos modernos, de transição política e industrial (do século XIX, no caso).

Reflexões e comentários sociais similares aparecem na série do Kojima, ainda que inseridos noutro contexto, de política e militarismo contemporâneos.

Metal Gear é sobre disputas de poder e os efeitos devastadores da guerra tanto na vida dos envolvidos diretamente quanto na sociedade como um todo, também sobre como as pessoas que têm ou buscam poder acreditam na legitimidade incontestável de suas ideologias e num direto à supremacia porque simplesmente “sabem” o que é melhor para o mundo.

Isso é representado, especificamente, na figura dos Patriots após os eventos de 1972, quando Big Boss descobre o Projeto Les Enfants Terribles e, em total desgosto, decide romper com a organização por não concordar com os métodos de seu maior aliado, o Major Zero. Este, pela forma distorcida como assimilou a visão da The Boss, sentia-se um pastor no dever de guiar as ovelhas ignorantes (a.k.a. sociedade) para um “bem maior”. Seu objetivo era a dominação mundial, suas armas a indústria da guerra e a manipulação da informação.

Os temas principais de The Phantom Pain, que será ambientado no período pós-quebra entre Big Boss e Zero, segundo o Kojima serão: RACE e REVENGE. Conflitos de raça, ciclo de guerra e vingança, Big Boss se rendendo às trevas…

mgs moby dick big boss

 >>>>> RAÇA

Para compreender a associação com o tema “raça”, do jogo, é preciso contextualizar o momento histórico do livro. Herman Melville viveu e ambientou sua obra no período que antecede a Guerra Civil americana e leva a alcunha de antebellum (termo em latim que significa, literalmente, “antes da guerra”). Era a época da grande tensão separatista entre o sul agrícola escravocrata e os estados progressistas e industrializados do norte, enquanto os Estados Unidos expandiam arbitrariamente suas fronteiras a oeste e fortaleciam seu impulso imperialista com o crescimento do comércio marítimo, cuja sustentação também vinha da mão-de-obra escrava e da exploração de povos marginalizados locais (latinos, indígenas, imigrantes chineses) ou de países subjugados posteriormente, como as Filipinas.

Os mais conservadores não viam grandes problemas nesse cenário, pois acreditavam que a superioridade americana era justificada pelo Destino Manifesto. Em oposição, diversos grupos abolicionistas e anti-imperialistas se formaram, como a “American Anti-Imperialist League” do escritor Mark Twain. Coincidentemente, só que não, é dele a citação no trailer da E3 2014.

“A raiva é um ácido que pode causar mais dano ao recipiente em que está armazenado do que a qualquer coisa em que é derramado.”

Num contexto desses, é impossível ninguém questionar se os fins justificam os meios quando o preço humano a se pagar é tão alto. Onde estão os limites éticos quando tantas pessoas são oprimidas por uma ambição?

O retrato que Melville faz da vida no mar é meio que um microcosmo dessa realidade.

Naquele momento prévio à corrida do petróleo, a baleação estava em alta. Técnicas modernas melhoravam a navegação e a caça dos cachalotes, e a substância extraída da cabeça deles, o espermacete, produzia de velas caseiras a lubrificantes industriais. Mas, as condições dos homens marginalizados que trabalhavam nos navios eram bem complicadas, fora a dificuldade de conciliar grupos de origens e tradições tão diversas dividindo o mesmo espaço por longos períodos. Qualquer baleeiro era um caldeirão cultural, o fictício Pequod não foge à regra.

“Quanto ao resto da tripulação do Pequod, seja dito que até o dia de hoje nem a metade dos milhares de homens trabalhando diante do mastro na pesca de baleias norte-americanas nasceu na América do Norte, embora quase todos os oficiais sejam norte-americanos. […] Digo o mesmo porque, em todos esses casos, o norte-americano nativo fornece liberalmente o cérebro, e o resto do mundo generosamente fornece os músculos.” (Capítulo 27)

Sob o comando do capitão Ahab (e outras figuras de autoridade, brancas), os subordinados das mais variadas etnias são ferramentas que ele manipula em benefício próprio. E não coincidentemente, os que têm menos valor e fazem a parte mais suja e pesada do trabalho são, em sua maioria, “homens de cor”.

mgs moby dick crew

Questões raciais ainda não haviam sido abordadas tão especificamente pelo Kojima, mas o problema da desumanização dos menos favorecidos, sim. Um dos pilares temáticos da série é mostrar que seres humanos viram meros peões nos jogos de poder de quem movimenta as guerras. Não há indivíduos, apenas instrumentos – tão descartáveis quanto um cartucho vazio de pistola.

Ao longo dos anos, os Patriots investiram em várias pesquisas científicas que pudessem criar soldados “perfeitos”, de terapia genética nos Genome Soldiers (que tinham seu DNA alterado para ter características semelhantes ao do Big Boss) à nanotecnologia com os Sons of The Patriots. Este último, o SOP, é um sistema que controla todos os militares ligados a ele pelas nanomáquinas implantadas em seus corpos. Essa tecnologia garante alto desempenho físico e estabilidade emocional (nem dor eles sentem, pois substâncias anestésicas são liberadas automaticamente na corrente sanguínea quando ficam feridos), mas não há privacidade nem livre arbítrio, já que são constantemente monitorados. E bem, se grande parte do que nos torna humanos autônomos é a capacidade de sentir e tomar decisões conscientes, um homem desprovido disso não é nada mais que uma máquina, ou uma marionete.

Abre parênteses…

Três filmes que exploram essa temática: Robocop, Robocop remake e Soldado Universal. Todos sobre homens que foram despidos de sua individualidade e autonomia. No remake de Robocop, inclusive, o Alex é controlado por um sistema que lembra o esquema do SOP e o filme aborda como as novas tecnologias digitais mudaram o cenário militar. Mesmo se a trama fosse ruim (não é), essa cena sozinha já valeria a experiência.

… fecha parênteses.

Talvez o melhor representante disso em MGS seja o próprio Solid Snake. Por ser um clone do Big Boss, já nasceu sem individualidade e não teve a oportunidade de experimentar uma vida normal longe do campo de batalha, da violência da guerras, das maquinações políticas. Quando ele cria uma organização independente junto com o Otacon, a Philanthropy, para combater a ameaça global dos Metal Gears após os eventos em Shadow Moses, sua luta pessoal transcende até a causa que eles abraçaram – David busca, finalmente, construir sua própria identidade e uma existência com propósito.

mgs moby dick old snake

Basicamente, todos os personagens de Metal Gear têm histórias trágicas de guerra, mas vários deles servem para destacar como os grupos marginalizados são sempre os mais vulneráveis. Duas das histórias mais tristes da série são a origem do Gray Fox como criança-soldado nos conflitos dos anos 60 e 70 em Moçambique e do Raiden entre as crianças-soldados da Libéria, que participaram em uma guerra civil extremamente sangrenta nos anos 90. Este último teve sua infância foi roubada por Solidus, que assassinou seus pais e o criou de maneira brutal para torná-lo uma máquina de matar.

“I think I was only six when I held my first AK, but I’m not even sure of that. […] They give you a gun, you ask how many to kill. If you didn’t, you were the one they shot instead. […] They built us from the ground up into killing machines…” (Diálogo de Raiden e Rose, MGS2)

Outro exemplo pesado e que muitos fãs não curtem, mas que, particularmente, considero que foi uma adição fundamental ao universo MGS, é a unidade Beauty & The Beast. Mulheres, em geral, ocupam a posição mais fragilizada em situações de conflito armado, especialmente as meninas de regiões pobres que crescem em zonas de guerra. Foi o caso de Laughing Octopus, Raging Raven, Crying Wolf e Screaming Mantis, que sofreram vários tipos de abusos e tiveram a sanidade destroçada. Presas fáceis, foram capturadas e depois recicladas com cibernética e nanotecnologia para se tornarem armas humanas.

mgs moby dick bb unit

Abre parênteses…

Apesar da zoeira característica, e não se levar a sério é um dos pontos fortes de Metal Gear, é interessante observar que a série não glamuriza a guerra. Kojima sabe o quão divertido é, por exemplo, derrubar um tanque inimigo com granadas e adora deixar o jogador brincar de fodão, mas também não nos permite esquecer que a guerra, na real, é um negócio feio, sujo e triste. Ele gosta de pontuar isso, na narrativa, quebrando o clima imediatamente após os momentos “épicos”. Quando ficamos com o ego inflado, logo vem uma martelada certeira na cabeça. Como as últimas palavras da Sniper Wolf, as histórias deprimentes das Beauty & The Beast que o Drebin conta ao final de cada luta, o sacrifício do Raiden, o destino da The Boss

… fecha parênteses.

“You saw those children, didn’t you? Every one is a victim of a war somewhere of the world. And they’ll make fine soldiers in the next war. Start a war, fuel its flames, create victims… Then save them, train them… And feed them back onto the battlefield. It’s a perfectly logical system. In this world of ours, conflict never ends. And neither does our purpose… our raison d’etre.” (Big Boss, Metal Gear 2)

Levando em conta o histórico da série sobre a exploração humana, a inspiração em Moby Dick e o fato de que uma porção de The Phantom Pain ocorrerá na África envolvendo crianças-soldados, dá para imaginar como o Kojima vai abordar o tema “raça”.

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>>> VINGANÇA

A mente é complicada. Cada indivíduo tem sua visão limitada e subjetiva das coisas e, muitas vezes, distorcemos nossa realidade ou não aceitamos aquilo que não podemos controlar. Acabamos criando nossos próprios fantasmas e obsessões, que podem trazer consequências drásticas na vida de uma pessoa e de quem está perto dela. Ahab e Big Boss que o digam.

Num nível mais íntimo, tanto a obra de Melville quanto Metal Gear examinam a colisão existencial entre o homem e seu meio; o indivíduo e as forças externas a ele; as percepções que construímos e a realidade; a busca da realização pessoal VS o reconhecimento dos limites do outro. Nesse diagrama humano, a interseção é uma área cinzenta e incerta.

mgs moby dick diagrama 1

“O que ousei, desejei; e o que desejei, farei! Pensam que sou louco – Starbuck pensa; mas sou demoníaco, sou a própria loucura enlouquecida! […] O caminho de minha resolução é feito com trilhos de ferro, onde minha alma está encarrilhada. Sobre desfiladeiros insondáveis, através dos interiores áridos das montanhas, sob o leito das correntes, avanço infalivelmente! Nada é obstáculo, nada me detém nessa estrada de ferro!” (Ahab, cap. 37)

Ahab não é mau, mas seu lado “dark” aflora após o trauma de ter perdido seu antigo navio e um pedaço da perna no confronto anterior com o cachalote. Como ele não consegue aceitar que foi derrotado, seu narcisismo o cega e o subjuga. O capitão acaba desenvolvendo uma fixação no animal, ao qual atribui características sobrenaturais, como se este fosse uma entidade a serviço do mal, e passa a persegui-lo porque projeta nele seus demônios interiores (raiva, medos, frustrações). Ele tem que matá-lo para tez paz, pois a vingança não é apenas sobre a criatura que inadvertidamente o prejudicou, mas a destruição do elemento que, simbolicamente, representa sua angústia existencial.

mgs moby dick pintura

Enquanto alegoria, a enorme e fantasmagórica baleia pode funcionar como um símbolo para a barreira que existe entre o indivíduo e tudo aquilo que ele não consegue compreender ou dominar. O palco do embate entre Ahab e seu algoz, a vastidão do mar, ilustra a pequenez do homem e suas ambições em relação à natureza, ao universo, ao todo.

mgs moby dick diagrama 2

“Eu atacaria o sol, se ele me insultasse!” (Ahab, capítulo 36)

Mas, apesar de conter tantas possibilidades interpretativas, a criatura em si é essencialmente um veículo narrativo que Melville usa para conduzir, através do character study de Ahab, sua exploração das nuances de uma mentalidade obsessiva. E o ódio de um indivíduo consumido pelo desejo de vingança é a associação temática mais óbvia entre Moby Dick e Phantom Pain.

Nos anos 70, Big Boss já havia rompido antigos vínculos e seguia sua vida de mercenário com os Militaires Sans Frontières. Mas os eventos de MGSV: Ground Zeroes, que culminaram na destruição da Mother Base e tudo que ele havia construído até então, foram o gatilho de sua ira. É aí que Cipher (codinome dos Patriots), ou mais especificamente o Major Zero, se torna a Moby Dick do Snake e do Kaz, que passam a perseguir sua própria baleia branca.

“A loucura humana é quase sempre felina e muito astuta. Quando pensamos ter acabado, pode ser que apenas tenha se transformado em algo mais sutil. A loucura de Ahab não havia cessado, apenas se condensado. […] Ahab tinha agora, para aquela finalidade, uma potência mil vezes mais forte do que jamais teve para um fim sensato, quando em juízo perfeito.” (Capítulo 41)

Mas Big Boss é um homem experiente, inteligente e sagaz, que parece saber racionalizar sua própria loucura, assim como Ahab. Uma parte fundamental para se entender a mentalidade do capitão é o capítulo 46, quando Ishmael analisa seu modus operandi. O rapaz observa que embora “consumido pelo fogo ardente de seu propósito”, Ahab estava há muito habituado à carreira de baleeiro para negligenciar os outros interesses da expedição. E conclui que talvez fosse um exagero insinuar que a vingança teria se estendido aos outros cachalotes e que, sob a justificativa de seu trabalho, ele mataria todos que encontrasse pela frente apenas para aumentar as chances de chegar a seu alvo final.

Só que Ishmael é narrador-personagem, não tem acesso ao que se passa na cabeça do Ahab, só pode observar e especular. Para o leitor, sobra a ambiguidade. Será que ainda havia algum espaço livre de Moby Dick na mente do capitão, ou todas as suas ações e pensamentos estavam submetidos ao objetivo de capturá-la? A mesma reflexão pode ser aplicada ao Big Boss: será que ele conseguia separar o plano de vingança do projeto de construir uma nação militar independente (Outer Heaven), e continuar lutando pelas causas em que acreditava, ou tudo que fez a partir da quebra servia ao propósito maior de derrubar os Patriots/Major Zero? Teremos a resposta em The Phantom Pain, ao acompanharmos os momentos derradeiros que o transformaram no “grande vilão” da série.

Resta saber quem é o Ishmael de MGSV e qual será o papel dele nessa história.

mgs moby dick mother base

Concluindo…

Ahab e Big Boss, homens cujas obsessões ideológicas os levaram a navegar por mares escuros e sangrentos até afundarem seus barcos (reais e simbólicos). Adversários de muita gente, mas principalmente inimigos de si mesmos. Ao final, tanto Moby Dick quanto Metal Gear apontam que, por mais que haja fatores externos que escapam ao controle, são nossas próprias ações que selam os nossos destinos, e que tudo que é construído sobre os frágeis pilares do ódio e da ambição desmedida eventualmente – e inevitavelmente – desmorona.

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ALGUMAS NOTAS FINAIS

Moby Dick é uma obra fascinante e está em domínio público. Se alguém se interessar, o texto original (em inglês) pode ser lido aqui ou aqui. A versão em português, acredito que só em livros físicos lançados no Brasil mesmo.

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Melville é um autor detalhista. É interessante que ele se preocupa em explicar a logística da baleação (equipamentos, caça, manejo dos cachalotes) e escreveu até um capítulo inteiro dedicado à cetologia. Dá para traçar outro paralelo nisso com o Kojima, que também tem um estilo narrativo bastante descritivo (a.k.a. prolixo).

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Aqui tem um textinho legal (em português) sobre Melville e o período romântico.

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Embora sejam popularmente chamados assim, os cachalotes não são tecnicamente baleias. Pelo que pesquisei, eles são mais próximos dos golfinhos que das baleias (ainda que sejam todos cetáceos). o_O

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Li por aí que uma das inspirações para a Moby Dick foi Leviatã, o monstro marinho da Bíblia. Leviathan para mim é summon de Final Fantasy. u_u

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Um jogo que tem baleação: Dishonored.

Um desenho que tem Moby Dick: Pica-Pau.

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Aqui tem um ótimo texto (em inglês) sobre como o nacionalismo se torna uma ferramenta na indústria da guerra.

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O excelente blog Art Eater tem uma análise (em inglês) de como o trailer da E3 2014 se apropria da letra da música “Nuclear” para ilustrar os temas de MGSV. No final, citam a provável inspiração para o futuro do Big Boss e do Kaz.

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Acredito que, de alguma forma, The Phantom Pain também vai mostrar como os Patriots começaram a construir sua rede de domínio social, que desencadeou os eventos em MGS2. Uma pista disso é o ano específico em que TPP será ambientado, 1984, que o Kojima enfatizou que tem um significado especial. Creio que não apenas indica o ponto na cronologia da série, mas também é uma clara referência ao clássico da ficção científica “1984”, de George Orwell, que foi inclusive a base conceitual para o álbum “Diamond Dogs” do David Bowie (olha aí o Kojima fanboy abusando das referências). “1984” explora como a manipulação da linguagem e da informação pode ser uma arma muito mais eficaz do que a violência das armas de fogo. Os Patriots são basicamente o INGSOC (partido que controla o governo totalitário no livro) de Metal Gear. “Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força”.

O diálogo mais emblemático de MGS2, por exemplo, indica que uma das inspirações do Kojima para as estratégias dos Patriots deve ter sido o doublethink, uma forma de lavagem cerebral do INGSOC. Induzidas a aceitar verdades fabricadas e assimilar crenças contraditórias como se fizessem sentido, as pessoas têm sua capacidade de análise crítica e opiniões moldadas e “esquecem” de questionar as coisas certas, enquanto defendem e reforçam, sem perceber, o sistema que as oprime. (Quase uma Síndrome de Estocolmo coletiva.)

Coronel: Raiden, you seem to think that our plan is one of censorship.

Raiden: Are you telling me it’s not!?

Rose: You’re being silly! What we propose to do is not to control content, but to create context.

Aqui tem o resto do diálogo, mais uma análise excelente dos temas de MGS2.

Talvez eu inclua “1984” no post final MGSV + Moby Dick.

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O personagem novo que mais me intriga em TPP é o Code Talker. “A Wise Man denied his homeland”. Seria isso uma pista de que ele foi um dos membros do Wisemen’s Comittee (grupo que originou basicamente toda a história do universo MGS, do qual o pai da The Boss fazia parte)? Ele será dublado pelo ator do Vega no filme de Street Fighter, Jay Tavare.

Aqui tem um post interessante sobre os Code Talkers na Segunda Guerra Mundial.

“Nós éramos 29 code talkers e criamos uma linguagem secreta que era duplamente criptografada e usava tanto o inglês quanto a língua Navajo. Ela se tornou o único código falado que nunca foi quebrado na história moderna das guerras. Finalmente os fuzileiros podiam planejar manobras estratégicas sem que o inimigo conhecesse cada movimento antes que eles fossem feitos.”

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Sdds Joakim Mogren.

 

Ufa! The End.

 

See you, space cowboys

Bebs
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4 Comentários em "História, literatura, baleias e Metal Gear"
  1. The Punisher
    22/10/2014

    Japa maluco né!

  2. Roberto Vasconcelos
    23/10/2014

    Massa, Bebs. Acho que o grande trunfo de Metal Gear é justamente esse: diverte e ao mesmo tempo traz um enorme conteúdo sobre vários assuntos importantes que geralmente as pessoas nem se ligam, com qualidade maior que muito filme, novela ou livro. E essa manipulação de informações e repetição de mentiras até que se tomem como verdades para que sejamos algo como a Síndrome de Estocolmo Mental Coletiva que você citou é tão antiga quanto o próprio homem. Dou como exemplo só uma instituição aí que tem todo o seu fundamento na história de um sujeito que morreu e ressuscitou… xD

  3. Felipe
    28/10/2014

    Demais o texto, parabéns. Para mim está parecendo que o Ahab é o Kaz, que levará a vingança até as últimas consequências e o Big Boss já parece mais sensato. Parabéns de novo pelo texto.

  4. Carlos Sarcinelli
    27/05/2015

    Gostei muito desse seu texto análise! Contribuiu muito para aumentar a minha fascinação por Metal Gear.
    Grande Abraço!

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