O romantismo gótico em Castlevania

Tags: Castlevania, dracula, konami

A série Castlevania completa 30 anos hoje. <3

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Na segunda metade dos anos 90, Koji Igarashi, recém promovido a diretor-assistente, recebeu a missão de levar Castlevania à geração 32-bit com o desafio embutido de prolongar a vida útil do próximo jogo o quanto fosse possível. À época, grande parte dos consumidores japoneses revendia seus jogos logo após zerar, o que trazia prejuízo financeiro às publishers, já que os usados eram mais procurados pelos descontos no valor. Reverter este cenário exigia uma boa dose de pragmatismo, e investir no famigerado fator replay parecia a melhor alternativa.

O elogiado level design de Symphony of The Night (1997), seu sistema de experiência, as skills e o inventário abrangente resultaram desse imperativo de se estender a experiência para que ninguém quisesse se desfazer tão cedo do jogo. E se nos títulos anteriores — excetuando-se Castlevania II: Simon’s Quest, que teve certa influência no gameplay de SoTN — era possível atravessar os domínios de Drácula seguindo um caminho mais ou menos linear, aqui o castelo ganhava escopo labiríntico e layout impeditivo.

Áreas aparentemente inacessíveis e outras tantas escondidas dificultavam a compreensão do mapa, mas procurar pelos inúmeros itens e segredos espalhados era simplesmente irresistível. Os complecionistas ainda podiam se deleitar descobrindo o castelo invertido.

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As mecânicas de exploração com elementos de RPG foram uma decisão de design tão acertada que o IGA acidentalmente criou um subgênero, eternizando, a partir de sua sinfonia noturna, o termo Metroidvania. Digo “acidentalmente” porque, no post-mortem muito interessante de SoTN da GDC 2014, o produtor contou que a verdadeira inspiração para o jogo foi a série Zelda – a similaridade com Metroid seria uma feliz coincidência. Inovar no gameplay, entretanto, não é suficiente para criar um jogo memorável. Castlevania precisava amadurecer esteticamente.

Até então, a estrutura narrativa da série se resumia ao básico: Drácula reencarna a cada cem anos; os Belmonts são caçadores de vampiros; você é um Belmont —> GO. Havia personagens com backgrounds diversos, como a Sypha, Grant e Alucard em Castlevania III: Dracula’s Curse, ou Eric e John em Castlevania: Bloodlines, contudo, nenhum se aprofundava muito em dramas e motivações pessoais. Em SoTN, a sensibilidade gótica que sempre permeou Castlevania seria devidamente assimilada em sua essência literária.

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A figura do vampiro moderno teve origem no efervescer do Romantismo, durante a transição industrial do século XIX. Se no século anterior o Iluminismo provocara rupturas nos paradigmas religiosos, a disrupção dos valores antigos e as transformações sociais traziam mais incertezas do que respostas. Havia uma nova gama de problemas decorrentes da Revolução Industrial que os avanços científicos não conseguiam solucionar e o caos da vida teimava em desafiar a lógica racional.

Contrariando a tirania da razão iluminista, os românticos entendiam que a realidade, como os sentimentos humanos — ambos intrinsecamente complexos e contraditórios — não se podiam domar. Restava, portanto, render-se ao sublime e abraçar a subjetividade do ser. A corrente gótica do Romantismo, por sua vez, examinava os anseios e os temores daquele período por meio do sobrenatural — e não haveria metáfora mais apropriada para hedonismo e corrupção moral do que a luxuriosa sede de sangue dos vampiros. O homem predador de si mesmo.

Hipnotizados pela modernidade, estaríamos rumando cegamente à decadência?

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O romantismo sombrio (de Edgar Allan Poe) e a ficção gótica britânica (dos pilares da tradição vampírica John Polidori, Sheridan Le Fanu e Bram Stoker) exploravam a fragilidade mental e a ambiguidade moral da natureza humana. Dividido entre o mundo antigo e o novo — no limiar entre o tangível e o oculto, o sagrado e o profano, a salvação e a perdição — a sina do homem era ser atormentado não somente pelas fugazes tentações mundanas, mas pelos seus desejos reprimidos e demônios interiores.

A obra de Stoker (mais especificamente sua releitura no filme de 1992, do Coppola) serviu de referência para o IGA recriar a origem do Drácula em SoTN e expandi-la posteriormente em Castlevania: Lament of Innocence, que incorpora a dualidade gótica ao retratar o vampirismo como condição que simultaneamente empodera e amaldiçoa.

Mathias Cronqvist, a encarnação humana de Drácula, era o grande estrategista de uma ordem de cavaleiros subordinados à Igreja no século XII. Considerado sábio entre seus pares, possuía um brilhantismo militar que só não ofuscava a fervorosa devoção a Deus. Para ele, só havia um propósito e um chamado: servir ao criador. Até o dia em que Elisabetha, sua adorada esposa, adoece e morre repentinamente enquanto o rapaz viajava em campanha.

Uma fé outrora inabalável sucumbe ao desespero.

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“We have risked our lives and fought for the sake of God… But God mercilessly stole away the one I loved most… When all I ever wished for was Elisabetha’s safety! If limited life is God’s decree, then I shall defy it! And within that eternity, I shall curse Him forevermore!”

Sentindo-se traído por Deus, Mathias decide abraçar a escuridão realizando um ritual macabro para virar vampiro, reconstruindo sua identidade (Filho do Dragão) e retomando as rédeas do próprio destino — esta é sua vingança. No entanto, a dor da imortalidade é inescapável: uma existência confinada às trevas, perdendo todas as pessoas queridas ao longo do tempo. Lisa, a segunda esposa de Drácula, também viria a morrer precocemente, executada como bruxa.

[Convém notar que Elisabetha e Lisa representam um arquétipo recorrente na ficção gótica: o da dama virginal. Nos romances góticos, o amor de uma mulher jovem, bela e, principalmente, virtuosa (valor exaltado pela moral conservadora vitoriana) costuma ser o último elo do homem corrompido com a inocência, e sua única possibilidade de redenção. Esta dinâmica reaparece no arco de Gabriel e Marie na trilogia Lords of Shadow.]

“By becoming a vampire, I obtained eternal life. That was my goal. It was my revenge against God!”

A transformação vampírica simboliza a perda da inocência que todos confrontamos em algum ponto da vida. Eventual e inevitavelmente, a realidade desmonta — para o bem e para o mal — tudo que é idealizado, todas as ilusões. Algumas decepções são meros choques de realidade; outras podem nos deixar sem chão. A de Mathias foi profundamente existencial. Desta forma, o Drácula da série deixou de ser uma caricatura para se tornar um verdadeiro vilão trágico.

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Ayami Kojima, então uma ilustradora editorial sem experiência prévia na indústria de jogos, foi a contratada para ilustrar a nova direção temática de Castlevania. Escolha talvez arriscada, mas que provou-se certeira: o estilo dela traduzia perfeitamente o fascínio mórbido do horror gótico.

Através de técnicas rebuscadas, as artes conceituais da série ganharam opulência, evocando a suntuosidade da arquitetura gótica medieval. Tal como contemplar os vitrais de uma catedral, são quadros que exigem um olhar mais demorado para absorvermos toda a profusão visual. As paletas de cores são densas, geralmente trabalhadas sobre bases escuras, com bastante preto. Tons pulsantes de vermelho tingem simbolicamente as telas com sangue. Tinta branca pura e pigmentos metalizados iluminam elementos de destaque, conferindo ar espectral.

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Kojima usa materiais tradicionais. Esboços são feitos com pastel seco, a pintura com nanquim e tintas acrílicas, e vernizes para finalização. Relevos de pasta modeladora, tintas craqueladas e pinceladas aparentes criam texturas que enriquecem as composições.

Na obra da japonesa, o grotesco é imbuído de um erotismo insinuado que perturba e atiça. Os personagens transmitem algo etéreo e inefável que desafia a intensidade dramática. Sempre muito pálidos, de alvura fúnebre, seus rostos carregam expressões ora lânguidas e misteriosas, ora tétricas e ameaçadoras.

Clique para aumentar e ver os detalhes das texturas.

Castlevania sempre chamou atenção visualmente (Super Castlevania IV é um espetáculo), mas antes de SoTN a série não tinha uma personalidade artística própria. As artes eram um misto de homenagem aos clássicos de terror da Universal com chupinhação do trabalho de artistas renomados dos quadrinhos, livros e RPGs de fantasia como Frank Franzetta e Clyde Caldwell.

Drácula era baseado na imagem mais icônica de vampiro da cultura contemporânea: o conde interpretado por Bela Lugosi no filme de 1931. Aquele da capa preta e cabelo lambido para trás que brilha muito no Halloween.

Clyde Caldwell VS Castlevania. Clique para aumentar.

Embora a série já tivesse firmado seu espaço nas gerações 8 e 16-bit, foi através das ideias do IGA (e equipe) e dos pincéis de Ayami Kojima (e das partituras de Michiru Yamane, mas esta fica para depois) que Castlevania ganhou identidade única e inconfundível. Considerando o esmero de sua produção, não surpreende que Symphony of The Night tenha se tornado uma referência indelével na história dos jogos.

 

Die, monster! You don’t belong in this world.

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NOTAS

>>> Em 2010, a Ayami Kojima lançou um artbook maravilhoso chamado Santa Lilio Sangre, que contém mais de 300 artes (não só de Castlevania). Há scans completos em: Vampire Killer.

>>> Dois belos textos (em inglês) sobre o vampiro moderno.

The Poet, the Physician and the Birth of the Modern Vampire

A Blood-Thirsty Gentleman (sobre o Drácula do Bram)

Bebs
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5 Comentários em "O romantismo gótico em Castlevania"
  1. 26/09/2016

    Adoro o SotN e toda essa revitalização que o IGA e a Kojima fizeram na franquia. Se não me engano o IGA até disse que o game tinha mais história, porém achou que o povo podia se sentir cansado, só deixou o essencial então! xD

  2. 27/09/2016

    Grande clássico, um dos melhores da série.

  3. 06/12/2016

    Que profundo e belo texto! Parabéns pelo site.

  4. Frederico
    10/12/2016

    Super Castlevania IV é o melhor de todos os tempos, na minha opinião. Sei que muitas pessoas cultuam o SoTN mundo a fora, e não os critico por isso, mas o acho um jogo bastante superestimado pela mídia, embora seja, de fato, um grande jogo.

  5. João Vicente Nascimento Lins
    11/02/2017

    Essa renovação dá série Castlevania criou jogos memoráveis e com fator replay quase infinito, basta ver os jogos do GBA que são versões aprimoradas SOTN. Ótimo texto.

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